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A armadilha das "melhores práticas"

28 Maio 2026

Copiar o comportamento dos outros é mais racional do que parece. Quando uma empresa não sabe exatamente como precificar seus produtos ou como remunerar seus vendedores, olhar o comportamento das outras empresas é uma forma de reduzir incerteza.

É dessa redução de incerteza que nasceu o apelo por saber o que são as "melhores práticas" do mercado -- há uma infinidade de cursos, palestras, livros etc. que te prometem ensinar as "best practices" numa dada área.

A questão é: "best practice" baseada em quê?

A resposta quase sempre é uma das seguintes: ou é "o que as empresas do setor usam", ou é "o que as maiores empresas fazem."

E é aqui que mora o problema desse negócio de seguir "best practice". Na verdade, dois problemas.

O primeiro problema é de causalidade.

A gente não sabe se as empresas bem-sucedidas que usam a prática X são bem-sucedidas por causa de X -- substitua X na sua cabeça por modelo de remuneração de longo prazo, arranjo remoto, marketing digital ou pelo que quiser.

Talvez essas empresas sejam bem-sucedidas por causa do aporte de capital que tiveram, ou do produto, ou pelo timing com que surgiram no mercado -- e o fato de fazerem X simplesmente não fez diferença.

Atribuir o sucesso da empresa à prática X é o mesmo erro que atribuir o sucesso da Apple, do Google e da NVIDIA ao fato de estarem localizadas na Califórnia.

É o clássico problema de viés de sobrevivência: quem faliu fazendo X a gente sequer sabe.

O segundo problema é de contexto.

Mesmo quando existe evidência causal de que X funcionou, isso não significa que vai funcionar na sua empresa.

E pode não funcionar porque a evidência surge em um contexto onde muitas interações com elementos organizacionais estão "congeladas". 

Quando você muda qualquer um desses elementos, o efeito muda -- às vezes até de direção.

Evidência causal de outro contexto é sempre melhor do que histórias anedóticas de uma ou outra empresa. Mas é um ponto de partida sobre o que pode ou não funcionar -- não deveria substituir testar as coisas no próprio contexto da empresa.

Antes de adotar uma forma de avaliar, recrutar, remunerar, fazer marketing ou o que for porque é "best practice", cabe sempre perguntar: sob que condições essa prática funcionou?

Quando a resposta for "não sei" ou "nunca perguntei", você está diante de uma oportunidade real de diferenciação. Porque entender por que X funciona, e se as condições para que funcione estão presentes no seu contexto, é o que separa quem aprende com o mercado de quem apenas o imita. E essa diferença, no longo prazo, é de fato estratégica.

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