Skip to main content

Imposto de país rico. Serviço de país pobre

28 Maio 2026

Nas aulas de economia para calouros tinha uma pergunta que sempre me faziam: "professor, imposto é roubo?"

Essa ideia tem origem antiga. Mas eu não tinha estofo para discutir isso por esse ângulo. Minha resposta era mais simplória: "a teoria econômica tem justificativas específicas para taxar; mas o que os países fazem vai além disso."

Nesse assunto, o Brasil é um caso realmente especial.

Primeiro, porque taxa muito para um país de renda média. "Ah, mas já sabemos disso". Será? Desconfio que o brasileiro médio não têm ideia de quão pesada é a taxação do Estado.

Vou dar um exemplo.

Se você contratar alguém por um salário bruto de R$10.000 por mês, você vai desembolsar algo em torno de R$16.000 a depender do regime tributário e de benefícios.

Nessa primeira camada, o Estado leva dessa diferença cerca de 40% (a parte que, pode-se argumentar, não retorna para o trabalhador).

Olhemos para o outro lado. O trabalhador não recebe R$10.000. Depois de impostos e contribuições, vai embolsar coisa de R$8.400. Nessa segunda camada, o Estado leva uns 16%.

A conta não acaba aí. Se esse salário líquido for todo gasto em consumo (aluguel, escola, alimentação), o Estado ainda fica com algo entre 20% e 30% desse montante. O % exato ninguém sabe, tamanho é o cascateamento de imposto na cadeia desses produtos.

O fato é que dos R$16.000 gastos para fechar esse contrato, o empregado retém cerca de 40% do poder de compra real.

O Estado brasileiro fica com pelo menos a mesma coisa que o trabalhador consegue efetivamente consumir!

Grande parte dessa carga é invisível, embutida nos encargos patronais que o trabalhador nunca vê e nos preços de tudo que compra.

Há país que taxa desse tanto? Com certeza.

Mas não há paralelo de país industrializado que arranque esse montante da renda do trabalho e ofereça retorno público tão baixo. E é esse combo "tira-muito-devolve-pouco" que faz do Brasil especial.

E aí cabe a reflexão: por que o brasileiro tolera isso?

Certamente há dezenas de explicações.

Uma explicação de natureza psicológica é a de que o "ponto de referência" do brasileiro é esse sistema de taxação pesada de baixíssimo retorno; ele simplesmente não tem experiência com nada diferente.

Nada disso parece estranho porque "é assim que sempre foi". Da mesma forma que 10 graus não é frio para quem vive há anos na Noruega.

Na prática, esse arranjo funciona como uma máquina de empobrecimento, porque te rouba muito mais tempo de vida do que povos de outros lugares precisam gastar para ter a mesma riqueza material.

Aí você se pergunta: tem solução pra isso?

No papel sim. Na prática é que são elas.

Mas é interessante ver como o sistema responde -- os 40 milhões na informalidade, a "pejotização" dos contratos de trabalho. E como isso vai empurrando o governo para taxar mais ainda consumo e aumentar a carga em geral.

E pensar que Tiradentes se insurgiu por 20% -- o único inconfidente, aliás, enforcado por isso.

Artigos relacionados


Remuneração fixa ou variável: qual atrai melhores candidatos?

Por que as empresas pagam pouca remuneração variável?

Seus funcionários são pagos para performar ou apenas para estar lá?