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As consequências de longo prazo de incentivos de curto prazo

Desenhar a política de remuneração de uma empresa tem mais ciência do que as pessoas imaginam. Mas não é assim que o assunto é visto. Para muitos, um bom modelo faz duas coisas: alinha salários ao mercado e joga um bônus nos cargos mais "estratégicos" (que todo mundo acha que são só os do topo). Não é ruim. Mas está longe de gerar todo o impulso de desempenho que um bom modelo consegue. E, pior, pode estar sabotando o futuro da empresa sem que ninguém perceba. 

Este artigo de Alex Edmans e colegas, lança luz sobre como os incentivos de curto prazo para executivos podem estar sabotando o futuro da sua organização e transformando decisões estratégicas em truques contábeis que só servem para inflar bônus.

Os pesquisadores queriam desvendar a face oculta dos incentivos de curto prazo. E se perguntaram: será que a remuneração de executivos, especialmente aquela atrelada a ações que logo se tornam vendáveis (o tal do vesting equity), leva os CEOs a tomar decisões que parecem boas agora, mas que corroem o valor da empresa no futuro? A questão central era entender se a miopia gerencial, induzida por esses incentivos, se manifesta em ações corporativas com consequências negativas de longo prazo.

 

Método

Para responder a essa pergunta, os autores analisaram dados de empresas de capital aberto nos EUA entre 2006 e 2015. Eles focaram em duas ações corporativas de alto impacto – recompras de ações e fusões e aquisições (M&A) – e as correlacionaram com o vesting equity dos CEOs. A ideia era ver se, quando os executivos estavam prestes a poder vender suas ações, a probabilidade dessas decisões aumentava e, mais importante, quais eram os retornos de longo prazo para a empresa.

 

O que encontraram — os resultados que surpreendem

O estudo revelou que, sim, existe uma conexão perigosa. Quanto maior o vesting equity de um CEO, maior a probabilidade de a empresa anunciar recompras de ações e M&A. O choque vem a seguir: essas ações, impulsionadas por incentivos de curto prazo, estão associadas a retornos de longo prazo significativamente negativos. Ou seja, o que parecia um movimento inteligente para o preço da ação hoje, se mostra uma destruição de valor amanhã. As recompras de ações, por exemplo, levaram a retornos menores nos três anos seguintes, e as M&A, por até quatro anos.

 

O que isso quebra na prática tradicional

Essa descoberta estraçalha a crença de que basta alinhar a remuneração dos executivos ao desempenho da ação para garantir o sucesso. A prática tradicional de RH e remuneração, muitas vezes, foca em métricas de curto prazo e em janelas de vesting que podem ser curtas demais. Isso cria um incentivo perverso: o CEO é premiado por "fazer a mágica" no trimestre, mesmo que essa mágica signifique sacrificar investimentos de longo prazo, pagar caro demais por uma aquisição ou usar o caixa para recomprar ações supervalorizadas. A "ciência" por trás da remuneração, que deveria impulsionar o valor sustentável, acaba por incentivar a miopia.

 

O que fazer diferente — implicações concretas

Se você quer que sua empresa prospere no longo prazo, é hora de repensar a remuneração executiva. Primeiro, alongue os períodos de vesting. Não é sobre prender o executivo, mas sobre alinhar o horizonte de decisão dele com o da empresa. Segundo, o conselho de administração precisa escrutinar com lupa as decisões de recompra de ações e M&A, especialmente quando o vesting equity dos CEOs está no pico. Terceiro, considere escalonar o vesting ao longo do ano, em vez de concentrá-lo em uma única data. Isso dilui o incentivo para "jogar para a galera" em um momento específico, promovendo uma visão mais contínua do valor.

 

O que o artigo não responde — limitações honestas

É importante lembrar que este estudo focou em grandes empresas de capital aberto nos EUA e analisou um período específico (2006-2015). Isso significa que os resultados podem não ser diretamente aplicáveis a empresas de capital fechado, startups ou em outros contextos culturais e regulatórios. O artigo também se concentrou em recompras e M&A, deixando de lado outras decisões que podem ser afetadas por incentivos de curto prazo. É um pedaço do quebra-cabeça, não a imagem completa.

 

A Principal Lição

Incentivos de curto prazo para executivos são a receita perfeita para decisões que brilham hoje e quebram a cara da empresa amanhã.

 

Fonte: Edmans, A., Fang, V. W., & Huang, A. H. (2022). The long‐term consequences of short‐term incentives. Journal of Accounting Research, 60(3), 1007-1046.