O que a Netflix já tem a ensinar sobre remuneração?
A Netflix é um excelente exemplo de como o papel da remuneração é menosprezado no sucesso das empresas.
Há uma multitude de estudos de caso e matérias em revistas "especializadas" interessados em dissecar os fatores por trás do sucesso da Netflix.
Afinal, mesmo em um mercado com competidores de peso (HBO, Hulu, Disney, Amazon Prime Video, Apple TV etc), a Netflix conseguiu se manter crescendo.
FATORES
As listas sempre passam pelos elementos mais óbvios -- a ida para o streaming, seu modelo de assinatura, seus algoritmos de personalização de catálogos -- com algumas mencionando também o papel da expansão global e da abordagem mais inovadora na criação de conteúdos.
Mas muito pouco se fala sobre o papel *causal* da estratégia de remuneração da empresa nesse sucesso.
MODELO DE REMUNERAÇÃO
Há dois elementos da "filosofia" de remuneração da empresa que são centrais a meu ver porque dele -- argumento -- seguem muitos dos "sintomas" observados como causas do sucesso da empresa:
1️⃣ A Netflix paga seus funcionários salários no topo da distribuição do mercado.
A empresa está sempre benchmarking seus cargos para garantir que seus quadros estejam entre os mais bem remunerados do mercado (em geral, acima do percentil 90).
2️⃣ A Netflix oferece programas generosos de remuneração por desempenho -- tipicamente na forma de ações. Bônus não depende de tempo de casa, mas de contribuição ao valor criado.
3️⃣ A empresa também é famosa por oferecer flexibilidade na escolha da composição da remuneração entre fixo e variável -- uma dimensão da generosidade do modelo de remuneração da empresa.
Esses elementos, como você deve imaginar, tornam a empresa um pólo de atração de gente muito qualificada de alto desempenho (o tal dos "talentos").
Claro que há reconhecimento de que isso ajudou. Mas quase como uma idiossincrasia da empresa, e não como um elemento causal de muitas das práticas inovativas que levam os louros do sucesso da empresa.
Meu ponto de reflexão aqui é que se pudéssemos medir o peso contributivo (falo de causa, não de efeito) de cada uma dessas coisas, a remuneração teria mais relevância do que parece ter.
Afinal, no fim do dia, o que acontece com uma empresa nada mais é do que uma função da quantidade e qualidade do input de pessoas na empresa).
E não vai ser pagando sistematicamente abaixo da mediana de mercado (tampouco pior do que isso), que sua empresa vai crescer nem mesmo uma fração do que cresceu a Netflix nessas duas décadas.