Tem muita coisa estranha na área de RH.
Dei um curso de "Economia dos Recursos Humanos" dois anos atrás e falei na primeira aula: vamos olhar essas questões de RH (recrutamento, motivação, avaliação etc) como os economistas olham para as coisas -- com modelos e olhando para a evidência sobre as hipóteses e resultados desses modelos.
Sabia que estava deixando de lado o tratamento mais tradicional. Como a audiência era de economistas, ninguém fez muita oposição e parecia genuinamente curiosa dado que RH, em geral, não é um tópico que interessa aos economistas.
Mas decidi fazer alguns cursos "tradicionais" da área de RH, baseados em psicologia organizacional e administração de pessoas. Queria entender as diferenças de abordagens e o que seriam as soluções para os desafios da área.
A experiência está sendo...curiosa, digamos.
ACADÊMICO D+
Um problema comum é que nem nas aulas, nem nos livros-textos recomendados, há muita fundamentação das coisas. As figurinhas ilustrando algum "modelo" (competência, estratégia, "human capital readiness" etc) vão aparecendo, sem nenhuma discussão sobre a operacionalização ou a aderência empírica desses modelos.
Acho que entendi porque o pessoal no ramo de cursos se esforça muito em enfatizar o lado prático do curso: cursos que parecem um mero desfile de conceitos são muito enfadonhos e -- suspeito -- pouco ou nada úteis.
O problema nesse tipo de curso em particular -- que, pelo que vi, é representativo dos cursos tradicionais da área -- não é ser "acadêmico", mas ser sem teoria clara e sem dados e testes.
Acho que por aqui passa a explicação da área ser governada por achismos, modismos e estar na luta para lidar com um mundo cada vez mais "data-based": os cursos tradicionais simplesmente não treinam as pessoas para lidar com os desafios da área de forma mais analítica.
CULTURA
Um exemplo ilustrativo disso é a importância quase obsessiva que se dá ao negócio da "cultura organizacional".
A hipótese implícita nesse assunto é que os empregados não têm agência e racionalidade, e podem ter sua motivação manipulada por discurso de liderança e socialização.
Nove fora o cheiro de "brainwashing", a importância dada a esse elemento é desproporcional à escassez de evidência dura de que essas coisas trazem benefícios.
Enfim, posso ter dado azar e tá fazendo um curso "marromeno". Mas pode ser que o ensino de RH esteja mesmo ainda preso a um passado que não existe mais.
Não é justo com o protagonismo que a área (que gere a principal força das empresas) deveria ter.