Por que as pessoas estão infelizes e desengajadas com os seus empregos?
Pesquisas de opinião mostram que algo em torno de 2/3 dos empregados em vários países estão insatisfeitos com seus empregos. É muito.
Mas o que explica esse sentimento? Descontentamentos são frequentemente fruto de expectativas frustradas – de remuneração, de relacionamento com chefe e colegas etc. E tomamos decisões de carreira tão jovens e com tão pouca informação que não deveria ser surpreendente que anos depois – mais experientes e com um melhor conhecimento de nossas próprias preferências – tantos se encontrem frustrados com a realidade de suas carreiras.
Parece razoável dizer que parte dessa frustração advém de “fricções informacionais” – informações que não temos e crenças que se revelam falsas ou “meia-verdades”. Como estamos falando de crenças equivocadas, vou chamar essas fricções de mitos. Meu argumento é que esses mitos estão na raiz de boa parte desse desengajamento com o trabalho.
Alguns desses mitos:
1. “Encontre um emprego em que você seja feliz”
Emprego é por definição uma atividade que envolve esforço físico e mental. É algo que vai, portanto, colocar estresse sobre seu corpo e seu bem-estar mental. Sem prejuízo de haver dimensões prazerosas, o trabalho gera desutilidade e por isso precisa ser compensado. Aceito isto, as carreiras deveriam ser escolhidas como se fossem ativos de uma carteira de investimento – com base em custo, risco e retorno. Mas há algum tipo de estigma cultural que coloca muitos de nós a encarar a escolha de carreira como um locus de felicidade. Isso me traz ao segundo mito.
2. “Encontre propósito no seu trabalho; faça algo de impacto”
Uma economia é como um avião: ela funciona bem porque há milhares de partes cumprindo suas funções. Há milhares de pessoas fazendo coisas fantásticas em várias áreas que nunca ouvimos falar. Isso deveria ser visto como evidência de como, por maior que seja a importância local do que fazemos, somos átomos cujo principal propósito é contribuir de forma invisível e impessoal para o voo do avião. Disso deveria decorrer que o trabalho, seja qual for, deve ser feito com profissionalismo, e não com expectativas de propósito e impacto incompatíveis com nosso atomismo.
3. “Se trabalhar duro no seu emprego, você ganhará muito”
Duas características do mercado de trabalho tornam isso uma possibilidade rara. Primeiro, o fato que boa parte dos empregos operam em esquema de compensação com salário fixo apenas. Se não há um componente variável atrelado a variáveis de performance (influenciadas pelo seu esforço), é improvável que trabalhar para alguém por um salário fixo faça muito pela sua riqueza. Segundo que não é incomum que bônus e compensação variável não seja mais do que um pagamento diferido de horas extras ou uma distribuição opaca de uma fração ínfima de retorno gerado – mais “justa”, porque você trocou os riscos de empreender pela segurança do emprego e salário estáveis.