APRENDER ECONOMIA NOS DEIXA "SEM CORAÇÃO?
Imagine que você é gestor de uma empresa e que essa empresa está enfrentando dificuldades financeiras por causa da recessão que aplacou a economia.
Vai haver uma reunião na qual você e os demais diretores da empresa terão que decidir quantas pessoas demitir. Seu departamento financeiro preparou a tabela abaixo indicando o lucro previsto a depender do número de demissões.
Quantas pessoas você recomendaria demitir?
RESPOSTA "CORRETA"
A pergunta cria, intencionalmente, um dilema entre demitir e maximizar lucro. A ideia é que sua escolha captura para onde mais pesariam suas preocupações: para com a maximização de lucro ou para com as pessoas que seriam demitidas.
Maximizar o lucro esperado da empresa requer uma demissão de 96 pessoas. Mas a empresa ainda teria algum lucro mesmo que optasse por não demitir ninguém.
O que você escolheria?
EXPERIMENTO
Em um artigo publicado em 2006 no Economic Journal, Ariel Rubinstein colocou esse problema para estudantes de graduação de economia, direito, matemática e filosofia; responderam também estudantes de MBA e estudantes de doutorado em economia do MIT e de Harvard.
Duas observações centrais são feitas:
1. Os estudantes de economia são mais "maximizadores de lucro" do que os estudantes de outras áreas.
2. As mulheres tendem a demitir menos.
IMPLICAÇÕES
Rubinstein argumenta que é o uso relativamente pesado de métodos matemáticos no ensino da economia que inclina os estudantes de economia para uma visão mais pró maximização de lucro e -- ele argumenta -- menos balanceada das complexidades dos problemas reais.
É o tipo de mensagem que provavelmente soa como poesia nos ouvidos de muitos economistas e cientistas sociais que não são muito fãs do uso de métodos quantitativos em economia.
Mas será que isso tem a ver com o uso de matemática?
O artigo de Rubinstein não consegue responder isso porque é uma foto e não um filme que compara as respostas antes da exposição ao ensino de economia e depois.
ESTUDO NA USP
No estudo sobre o efeito do ensino introdutório de economia sobre as crenças dos estudantes, Meloni e eu colocamos essa pergunta no questionário.
O gráfico de pizza abaixo mostra as respostas antes do curso e depois do curso a essa pergunta.
O efeito é evidente.
Dado que o uso de matemática é praticamente mínimo nesses cursos introdutórios, esse resultado -- se confirmado depois de expandirmos a amostra -- sugere então que o pendor para a maximização de lucro nada tem a ver com a FORMA com que os conteúdos são ensinados, mas com o CONTEÚDO em si.