O impacto da remuneração na ciência e na carreira acadêmica
Imagine que uma grande empresa de tecnologia pede para você, um(a) data scientist, analisar os dados dela sem qualquer pagamento. Ou que um escritório de advocacia solicite a um advogado sênior que revise contratos gratuitamente. Ou ainda, que um CFO ou CEO receba uma proposta para liderar uma reorganização financeira sem remuneração.
Soa absurdo, certo?
Agora, vou contar algo que talvez você não saiba: na academia, isso é prática comum.
A maioria dos pareceres sobre artigos submetidos a revistas científicas – uma etapa fundamental do processo de publicação – é feita sem qualquer remuneração (tampouco a publicação). Isso mesmo: pesquisadores doam tempo e conhecimento para editoras que lucram milhões anualmente.
PEER REVIEW
Para quem não está familiarizado: quando um pesquisador submete um artigo a uma revista acadêmica, ele precisa passar por um processo chamado peer review (revisão por pares).
Nesse processo, especialistas na área analisam o artigo para avaliar sua qualidade e relevância científica antes da publicação. É um trabalho minucioso, que demanda tempo, esforço e expertise.
Mas os pareceristas não são remunerados. Todo esse trabalho crítico e essencial é realizado de forma "meio" voluntária -- digo "meio" porque você pode cair eternamente em desfavor (ou boa graça) com revistas para as quais você nega (ou aceita) fazer um parecer.
Esse modelo sem remuneração tem implicações profundas. Três que me parecem críticas:
1. Atrasos nas publicações:
Pareceristas voluntários, já sobrecarregados com suas próprias atividades, frequentemente atrasam as avaliações, o que prejudica tanto os autores quanto a ciência.
2. Baixa qualidade nas avaliações:
Sem incentivos adequados, alguns pareceristas realizam análises superficiais, o que compromete o rigor científico.
3. Vieses nas avaliações:
Pareceristas podem se apoiar em sinais como a filiação institucional para julgar artigos, prejudicando autores menos conhecidos.
POR QUE ISSO PERSISTE?
Esse sistema, que remonta a séculos atrás, é frequentemente defendido com base em dois argumentos:
i) A colaboração acadêmica como missão:
Muitos veem o peer review como uma forma de contribuir para o avanço do conhecimento.
ii) Controle de custos:
Não pagar pareceristas evita taxas mais altas para autores e leitores.
Mas será que esse modelo ainda faz sentido?
Tenho rejeitado esses pedidos há um bom tempo. Não vai fazer a mínima diferença para o sistema. Mas vai fazer muita diferença para mim ter dois dias de trabalho para dedicar à minha família ou aos meus projetos.
Submeter para boas revistas não é barato. Mas é melhor pagar se isso ajuda na compensação de quem está se dedicando -- anonimamente -- ao trabalho e acelera o parecer.
Quais seriam alternativas viáveis para criar um sistema mais justo e eficiente?