Como a dinâmica do relacionamento entre esposas e maridos é afetada pelas diferenças de salário entre os dois?
Há hipóteses distintas sobre como as disparidades salariais podem moldar as relações conjugais.
Em alguns modelos é proposto que a ascensão do status econômico da mulher poderia atuar como um contrapeso à violência doméstica, aumentando seu poder de barganha no lar. Sob essa perspectiva, uma renda mais substancial proporciona à mulher a capacidade de influenciar decisões financeiras, possivelmente reduzindo conflitos e promovendo uma coexistência harmoniosa.
Em outros modelos é considerado um mecanismo com outra relação: o aumento do status econômico da mulher poderia intensificar a incidência de violência doméstica. O mecanismo aí seria o de que a independência financeira da parceira, ao ameaçar a tradicional hierarquia de gênero, causaria respostas abusivas por parte do parceiro masculino como uma tentativa de afirmar seu controle.
São hipóteses. Mas o que acontece na prática?
🕵♀️ EVIDÊNCIA
O trabalho de Elizaveta Perova (Banco Mundial), Sarah Reynolds (Universidade da Califórnia, Berkeley) e Ian Schmutte (Universidade da Geórgia) traz evidências (com dados do Brasil) sobre isso.
O principal resultado: um aumento do salário da mulher em relação ao do homem é associado com uma redução de violência contra a mulher -- sua forma mais severa, o homicídio.
Perova, E., Reynolds, S., & Schmutte, I. (2023). Does the Gender Wage Gap Influence Intimate Partner Violence in Brazil?: Evidence from Administrative Health Data. Journal of Human Resources.
Um resultado interessante: para outras formas menos letais de violência, o efeito é detectado apenas nos municípios onde há delegacias da mulher (onde não há, os autores reportam um efeito contrário, o que evidencia a importância dessa rede de suporte institucional).