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Pagar salários acima da média de mercado pode ser uma fonte de vantagem competitiva?

05 Junho 2026

Quando o assunto é salário, o saber convencional nas organizações dita que não se deve pagar muito diferente do que faz a média do mercado.

Mas já comentei aqui sobre a teoria do "salário eficiência" -- um termo que os economistas usam para se referir à ideia de que pagar aos empregados salários altos pode se autofinanciar com o aumento de produtividade que esses salários causariam.

 

CANAIS DE CAUSALIDADE

Vários efeitos contribuíram para que maiores salários causasse maior engajamento e produtividade dentro da empresa:

 

1. Efeito custo de demissão

- Salários mais altos do que a melhor alternativa no mercado criam um custo de perder esse emprego, encorajando engajamento e diminuindo custos de monitoramento.

 

2. Efeito "turnover"

- Salários mais altos desincentivaram a busca de outro emprego.

 

3. Efeito seleção

- Salários mais altos atraíram candidatos mais habilidosos/mais produtivos.

 

4. Efeito reciprocidade

- Salários mais altos seriam retribuídos com mais esforço/engajamento.

 

O negócio não é apenas uma teoria abstrata para justificar a generosidade salarial. Há uma extensa literatura acadêmica mostrando evidência de que esses benefícios existem.

Mas ainda é uma questão empírica em aberto saber exatamente por quais canais esse efeito ocorre e qual a persistência desse efeito em relações longas de trabalho.

 

IMPORTÂNCIA DA POLÍTICA DE DEMISSÃO

Dito isto, o ponto que gostaria de fazer aqui é o de que para que essas políticas sejam factíveis do ponto de vista financeiro é necessário que as empresas tenham políticas firmes e consistentes de demissão de quem for pego esquivando-se de suas responsabilidades.

Vejamos isso em um modelinho bem simples (só pra construir intuição). Suponhamos que:

 

  • A empresa paga um salário S que é acima de mercado;
  • O salário alternativo (se o empregado for demitido) é S^alt;
  • O benefício de “esquivar-se de responsabilidades” é B (não estar engajado);
  • A probabilidade de ser demitido por ter sido pego esquivando-se é p;

 

Ora, se o empregado for racional ele/ela sabe que tem duas opções: não estar enjado ou estar engajado.

Se estiver engajado, recebe S.

Se decidir não se engajar, recebe B. Mas recebe algo além em expectativa: se for detectado, é demitido e recebe p*S^alt; se não for detectado, fica na empresa e recebe (1-p)*S.

 

Por racional quero dizer o empregado que fará o que for mais lucrativo pra ele/ela. Nesse caso, não valerá a pena ficar desengajado desde que:

 

S >= (1-p)S + pS^alt +B

 

o que é verdade apenas se

 

S >= S^alt + B/p

 

Note como quanto menor a probabilidade de detecção, maior é o salário que a empresa precisa pagar para desincentivar o desengajamento. O gráfico abaixo ilustra isto.

Não foi fornecido texto alternativo para esta imagem

O resultado é meio intuitivo: para que pagar mais do que a média de mercado seja retribuído com mais engajamento, a empresa precisa fazer acreditar que "fazer corpo mole" não será tolerado.

Não há almoço grátis. 

 

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