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Por que a falta de remuneração de incentivo faz as empresas operarem aquém do seu potencial?

29 Março 2026

Remuneração baseada em desempenho é uma "novidade" na história das relações de trabalho -- surge em suas formas mais simples praticamente na segunda metade do século XX. Desde o período pré-industrial até recentemente, a remuneração sempre foi composta essencialmente de salário fixo.

Não é fácil desconstruir esse tipo de convenção.

Mesmo numa economia pujante como a americana, 30% das empresas americanas não oferecem nenhum tipo de remuneração variável (cf. Survey da PayScale de 2021). No Brasil isso deve ser muito mais do que a metade.

Nas empresas que oferecem remuneração variável, ela é frequentemente um componente exclusivo dos altos escalões da empresa ou não passa de um PLR acordado em convenções sindicais (um exemplo de remuneração variável que pouco tem de incentivo).

Nesse post eu vou resumir o fundamento lógico por trás da ideia de que se as empresas querem estimular seus funcionários a desempenharem seu melhor, então elas precisam aumentar a potência dos seus incentivos -- e isso é primordialmente feito via remuneração "variável" e não remuneração fixa.

 

PONTO DE PARTIDA: O PROBLEMA DO EMPREGADO

Vamos assumir que empregador e empregado desejam a mesma coisa: maximizar o seu "lucro". A diferença aí é que o "lucro" do empregado (Le) depende da remuneração recebida (R) e do custo (C(.)) do esforço (E) que ele/ela faz. Isto é:

 

Le = R - C(E) (custo' > 0, custo''>0) (1)

 

Note que fazer esforço tem sempre um custo e este custo é provavelmente convexo (i.e., fazer esforço vai ficando crescentemente mais custoso). Entender essa equação é crucial porque nela está a chave para, via remuneração, resolver o conflito na relação empregado-empregador.

 

CONTRATO

Vamos assumir agora que a empresa ofereceu um contrato de trabalho com uma remuneração (R) que tem dois componentes: um salário fixo (Sfixo) e um variável que é uma fração "b" de uma medida de desempenho da empresa, produção (P) digamos. Isto é:

 

R = Sfixo + b*P (2)

 

Vamos assumir que a produção depende de esforço e de "sorte" (s). Isto é,

 

P = pE + s (3)

 

onde p mede o quão produtivo é o esforço E e s é uma variável aleatória de média zero.

 

SOLUÇÃO: ESFORÇO ÓTIMO

Assumindo que o contrato foi aceito, vamos agora derivar quanto de esforço será feito. "Plugando" (3) em (2) e substituindo (2) em (1) dá pra ver que o lucro do empregado será:

 

Le = Sfixo + b*(pE+s) - C(E)

 

Um pouquinho de cálculo nos mostra que essa função vai estar num máximo quando b*p = C'(E) (onde C' = custo marginal do esforço). Isto está ilustrado nos gráficos 1 e 2 na figura.

Não foi fornecido texto alternativo para esta imagem

Note que mudar o salário fixo não tem efeito no esforço. Qualquer aumento de esforço requer aumentar a potência do variável no contrato, capturado pelo parâmetro b (gráfico 3). 

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