Por que as empresas não divulgam salário e por que a prática é ineficiente?
Imagine entrar em um supermercado e na etiqueta de preço dos produtos ver escrito as expressões "preço a combinar" ou "preço competitivo". Estranho, né?
INEFICIÊNCIA
O cenário é estranho porque a ineficiência que isso criaria seria tão gigante que ninguém cogita a possibilidade de supermercados funcionarem dessa forma -- imagine o tempo perdido enchendo o carrinho para descobrir só no caixa que o produto está além do que você quer/pode pagar?
MERCADO DE TRABALHO
E no entanto é um pouco dessa forma que boa parte do mercado de trabalho opera: as pessoas se candidatam a vagas de emprego sem saber a remuneração a ser paga.
Um levantamento feito há uns anos atrás numa plataforma de emprego brasileira estimava que 47% das vagas não tinham informação salarial.
Uma olhada em qualquer plataforma deixa a impressão que esse número é muito maior, sobretudo quando se exclui os chamados empregos "blue-collar" (vagas com menor exigência de qualificação).
JUSTIFICATIVAS
As justificativas alegadas para essa prática são conhecidas:
1) evitar disputas salariais internas;
2) atrair pessoas interessadas pelo "propósito" e não só pelo dinheiro;
3) extrair excedente do candidato na barganha;
4) atrair candidatos com pretensão salarial maior do que o salário da vaga.
As razões 1-3 parecem imaginativas, e a 4 é a única, a meu ver, que guarda alguma racionalidade. Vejamos.
EFEITOS EM SELEÇÃO
É fácil ver porque os RHs das empresas podem preferir não divulgar salário em vagas.
Vamos assumir que:
1️⃣ a pretensão salarial do candidato tem grande correlação positiva com sua "qualidade";
2️⃣ o candidato aceita trabalhar apenas se o salário for igual ou maior que sua pretensão salarial;
3️⃣ a probabilidade do candidato "aplicar" para uma vaga é função direta da massa de probabilidade do salário ser maior do que sua pretensão salarial.
4️⃣ o candidato adota o "princípio da razão insuficiente": sem informação, ele distribui suas crenças em todos os salários possíveis.
Sob essas condições, dá pra mostrar que ao não divulgar informação salarial, as empresas atraem uma amostra de candidatos com qualidade média mais elevada -- os gráficos na figura ilustram as diferenças entre a distribuição de qualidade de quem se candidata e da população elegível à vaga.
Parece então vantajoso omitir salário.
O problema é que no fim do dia importa a qualidade do candidato que a empresa de fato recrutou -- e em qualquer cenário na figura, a empresa vai acabar recrutando alguém com a qualidade que o salário R$ Y "compra".
Vagas que dizem "salário entre R$5.000 e R$7.000", por exemplo, não vão atrair candidatos com qualidade elevada que justifique uma pretensão salarial muito acima de R$7.000.
No fim das contas, não divulgar salário não mudou a qualidade do recrutado, mas gerou perda de tempo dos dois lados do mercado. Ineficiência pura.