Skip to main content

Por que pagar bônus por meta individual se o que a empresa gera é produto de esforço coletivo?

05 Junho 2026

Não é difícil encontrar quem acredite que não há nada de meritocrático em remunerar as pessoas com base no cumprimento de metas individuais.

Afinal, se o que a empresa gera é produto do trabalho de todos, remunerar as pessoas de forma individualizada e assimétrica parece no mínimo estranho -- talvez até injusto -- dado a interdependência entre o que cada um produz dentro da empresa.

É uma ideia com apelo intuitivo. Mas ela parte de uma premissa correta ("existe interconexão") para chegar em uma conclusão, a meu ver, equivocada, qual seja: a de que a bonificação individual é contraproducente porque dissolve o incentivo à colaboração.

 

Abaixo, vou tentar esclarecer como esta ideia é imprecisa.

 

PROS/CONS DA REMUNERAÇÃO VARIÁVEL (RV)

 

De partida, vamos notar três coisas sobre RV:

 

1. O objetivo da remuneração por desempenho individual é alinhar o esforço do empregado com os objetivos da empresa. Esse princípio é consistente com "amarrar" bônus ao que quer que a empresa ache importante, inclusive a produção do "time" como um todo.

 

2. Atrelar RV a metas individuais não nega as interdependências que existem entre o produto dos empregados, mas apenas reconhece o problema de incentivo que se cria quando a RV não depende do que eu controlo, e depende apenas do que a coletividade produz.

Esse é o problema da RV por metas coletivas: as pessoas não se apropriam inteiramente do valor criado pelo esforço pessoal (já que o time todo se beneficia), recebendo, na prática, incentivos (ruins) a "pegarem carona" no esforço alheio. Não é uma perversão ética, mas mero produto do incentivo que esse tipo de remuneração gera.

 

Isso me traz ao terceiro ponto:

 

3. É claro que uma RV que depende *estritamente* de tarefas individuais gera pouco incentivo para a colaboração -- afinal, tempo ajudando o colega é tempo que se deixou de usar para perseguir suas metas individuais.

 

Mas não há modelo de remuneração que resolva simultaneamente todos esses problemas: todo modelo tem custo e benefício; cabe desenhar um modelo com a melhor relação benefício/custo.

É falacioso, portanto, focar no custo de um modelo de remuneração sem atentar para seus benefícios. E toda a evidência empírica disponível indica que as empresas que oferecem bonificação individualizada, são mais produtivas e lucrativas.

INTERDEPENDÊNCIA

Sei que não é didático aqui, mas usei um pouco de cálculo para ver como mesmo com interdependências no lucro da empresa (Fig 1), não remunerar o produto do esforço individual afeta adversamente a lucratividade da empresa (porque "enfraquece" os termos dentro dos colchetes na derivada total na Fig. 2).

Não foi fornecido texto alternativo para esta imagemNão foi fornecido texto alternativo para esta imagem

Se o bônus afeta a cooperação, não é um problema do bônus em si, mas uma falha em como você o desenha. 

Mais artigos

Por que as empresas não divulgam salário e por que a prática é ineficiente?

Essa notícia é excelente para ilustrar dois problemas centrais no universo de remuneração.

O protagonismo dos Recursos Humanos