Seu modelo de remuneração pode estar pagando as pessoas para se sabotarem
Cultura organizacional frequentemente não é o que os fundadores/gestores desejam e tentam impor através de comunicação e rituais internos, mas o que emerge, a longo prazo, dos incentivos que existem na empresa.
Um exemplo disso é a forma com que muitas empresas pagam bônus e decidem promoções.
Ao remunerar e promover com base em desempenho individual e esquemas de torneio (onde os vencedores são os de melhor desempenho *relativo*), uma caixa de efeitos sortidos se abre.
De um lado, há os efeitos positivos que a empresa deseja: as pessoas se empenham mais e acabam entregando mais produtividade como um todo -- efeitos já bem documentados na literatura empírica sobre torneios.
Mas há também efeitos menos desejáveis: esquemas relativos de incentivos acabam comprometendo o clima ético e incentivando comportamentos competitivos predatórios.
Não faltam relatos por aí de empresas onde as pessoas pouco se ajudam -- e até se sabotam -- porque a vitória de um é percebida como a derrota de outro; quem duvida que dê um passeio pelo Glassdoor.
EFEITO NÃO-INTENCIONAL
Não é que estruturas que premiam apenas os “melhores” -- seja com bônus, reconhecimento ou acesso a oportunidades -- sejam inerentemente ruins.
Mas a depender de como são desenhadas, a cooperação vira risco, compartilhar informação cria desvantagem e a linha que separa competição de sabotagem vai ficando opaca.
Não é difícil imaginar que tipo de cultura vai emergir de um ambiente desses -- baixa confiança, cada um por si e ninguém por todos.
UMA SOLUÇÃO
Pensando numa forma de neutralizar os efeitos indesejáveis de esquemas de torneio para remuneração e promoção, desenhei um esquema de incentivos que ataca a raiz da falta da cooperação nesses ambientes: a falta de mercado/preços para atos de cooperação que vão além do dever organizacional.
A ideia é simples:
✅ todo mundo recebe um saco de moedas virtuais (dotação) que pode usar para pagar os colegas por tais atos.
✅ as transferências devem ter registro público -- montante, para quem e por qual razão
A publicidade ajudaria a coibir padrões de pagamentos motivados por nepotismo informal, favorecimento pessoal e bajulação, sem falar que comunicam o que é percebido como "cidadania organizacional" e os "preços sociais" de cada ato.
✅ Os montantes finais que cada um recebe não teriam valor monetário, mas ajudariam a determinar um ranking de cooperação organizacional, que deveria então ser premiado -- mas não com coisas muito caras, para evitar a criação de um mercado paralelo de compra e venda de moedas.
Veja que a ideia não é abolir a competição por bônus e promoções, mas sim criar incentivos para atos de cooperação e generosidade organizacional.
Afinal, se você quer que as pessoas entreguem resultado e colaborem com os outros, talvez não devesse dar o troféu só para quem bate meta.