O paradoxo da colaboração: quando recompensar o time prejudica o time
Não é difícil encontrar quem acredite que não há nada de meritocrático em remunerar as pessoas com base no cumprimento de metas individuais.
Afinal, se o que a empresa gera é produto do trabalho de todos, remunerar as pessoas de forma individualizada e assimétrica parece no mínimo estranho -- talvez até injusto -- dado a interdependência entre o que cada um produz dentro da empresa.
É uma ideia com apelo intuitivo. Mas ela parte de uma premissa correta ("existe interconexão") para chegar em uma conclusão, a meu ver, equivocada, qual seja: a de que a bonificação individual é contraproducente porque dissolve o incentivo à colaboração.
Abaixo, vou tentar esclarecer como esta ideia é imprecisa.
PROS/CONS DA REMUNERAÇÃO VARIÁVEL (RV)
De partida, vamos notar três coisas sobre RV:
1. O objetivo da remuneração por desempenho individual é alinhar o esforço do empregado com os objetivos da empresa. Esse princípio é consistente com "amarrar" bônus ao que quer que a empresa ache importante, inclusive a produção do "time" como um todo.
2. Atrelar RV a metas individuais não nega as interdependências que existem entre o produto dos empregados, mas apenas reconhece o problema de incentivo que se cria quando a RV não depende do que eu controlo, e depende apenas do que a coletividade produz.
Esse é o problema da RV por metas coletivas: as pessoas não se apropriam inteiramente do valor criado pelo esforço pessoal (já que o time todo se beneficia), recebendo, na prática, incentivos (ruins) a "pegarem carona" no esforço alheio. Não é uma perversão ética, mas mero produto do incentivo que esse tipo de remuneração gera.
Isso me traz ao terceiro ponto:
3. É claro que uma RV que depende *estritamente* de tarefas individuais gera pouco incentivo para a colaboração -- afinal, tempo ajudando o colega é tempo que se deixou de usar para perseguir suas metas individuais.
Mas não há modelo de remuneração que resolva simultaneamente todos esses problemas: todo modelo tem custo e benefício; cabe desenhar um modelo com a melhor relação benefício/custo.
É falacioso, portanto, focar no custo de um modelo de remuneração sem atentar para seus benefícios. E toda a evidência empírica disponível indica que as empresas que oferecem bonificação individualizada, são mais produtivas e lucrativas.
INTERDEPENDÊNCIA
Sei que não é didático aqui, mas usei um pouco de cálculo para ver como mesmo com interdependências no lucro da empresa (Fig 1).
Não remunerar o produto do esforço individual afeta adversamente a lucratividade da empresa (porque "enfraquece" os termos dentro dos colchetes na derivada total na Fig. 2).
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